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Descoberta a origem da gaguez no cérebro
Uma equipa de cientistas alemães revelou ter descoberto que a gaguez
permanente é provocada por uma disfunção no hemisfério esquerdo do cérebro.
A
gaguez permanente pode estar relacionada com uma anomalia nas áreas do córtex
cerebral relacionadas com a linguagem, segundo revela um artigo publicado
na edição do mês de agosto de 2002 da revista The
Lancet.
De acordo com uma investigação levada a cabo por
cientistas das universidades de Hamburgo
e Gottingen, a origem
do problema está no hemisfério esquerdo do cérebro, onde se interligam
as estruturas cerebrais envolvidas no planeamento e articulação do
discurso.
A experiência foi efectuada com um grupo de 15 pessoas
gagas, tendo a estrutura dos seus tecidos cerebrais sido analisada através
da técnica de ressonância magnética MRI. Os resultados foram depois
comparados com os de um outro grupo de 15 pessoas, que não tinham
problemas de gaguez.
O discurso de todos os participantes na experiência foi
gravado, enquanto liam um texto ou falavam, de improviso, sobre temas da
actualidade internacional. Ao mesmo tempo, era realizada a ressonância
magnética.
Os investigadores chegaram à conclusão que a gaguez
permanente resulta de um erro no tempo de activação nas áreas cerebrais
relacionadas com a linguagem. A explicação é que, para se conseguir um
discurso fluente, é necessária um sincronização temporal precisa entre
os sistemas articulatório e fonatório.
"Esta anomalia desenvolve-se provavelmente durante
o período de aquisição da linguagem, no qual muitas crianças passam
por uma fase transitória de gaguez", refere o artigo.
por Paulo Jorge Dias
Palavras aos Soluços
Quando falamos com uma pessoa gaga, o que mais chama a atenção é
a forma como pronuncia determinadas palavras. O seu discurso pode ser
relativamente fluente até que é interrompido por sílabas que se repetem
até se conseguir pronunciar por inteiro uma dada palavra. São bloqueios,
que acontecem de forma sistemática na verbalização daquilo a que
poderemos chamar palavras problemáticas. São sempre as mesmas, de tal
forma que a pessoa gaga até evita pronunciá-las.
Estes são os sinais exteriores de uma disfunção que implica perturbações
na comunicação, na fluência normal e na organização temporal da fala.
Também denominada dislalia, caracteriza-se, em termos mais concretos, por
uma hesitação repetitiva e demora na emissão de palavras ou pelo
prolongamento anormal de sons.
Pelo embaraço que causa, a gaguez surge associada a certos comportamentos
motores, como piscar de olhos, tremores dos lábios ou da face, movimentos
respiratórios durante a fala ou mesmo tiques.
É entre os dois e os sete anos que a gaguez costuma manifestar-se, com
especial incidência nos cinco anos. Quase sem se dar por isso, as crianças
começam a tropeçar nas sílabas, apresentando dificuldade em verbalizar
certas palavras. Um processo que se vai arrastando durante vários meses,
prejudicando a fluidez verbal até se tornar num problema crónico.
Sabe-se que os rapazes são mais propensos, mas não se conhecem ainda as
razões para esta preferência da gaguez pelo sexo masculino. Existem
apenas alguns estudos que a relacionam com o aumento da hormona masculina,
a testosterona, antes do nascimento, o que afectará a acção de
determinados químicos existentes no cérebro dos rapazes. A verdade é
que ainda se discutem as causas da gaguez, com os investigadores divididos
entre aqueles que atribuem esta perturbação a uma lesão cerebral e os
que a consideram sobretudo uma questão psicológica. Pelo meio, subsistem
teorias que relacionam a gaguez com um qualquer traumatismo sofrido na infância.
Mas, por enquanto, as dúvidas são maiores do que as certezas.
Pressão social aumenta gaguez
Em 80 por cento dos casos, a gaguez regride espontaneamente antes dos
dezasseis anos, mas pode manter-se por toda a vida, interferindo na vida
social e profissional do indivíduo. Tal como interfere no rendimento
escolar de uma criança, pelo que há que estar atento a qualquer perturbação
da linguagem, em particular, e da comunicação, de uma forma mais ampla.
É que leva tempo até a própria pessoa se aperceber da dificuldade
sistemática que enfrenta quando tem de pronunciar determinada palavra.
Imagine-se então uma criança. É na escola, nos momentos de interacção
com os demais alunos e com o educador/professor, que os atropelos se
denunciam. Chamada a responder perante a classe, a criança pode sentir-se
pressionada e a gaguez torna-se então mais evidente. O que, sabendo nós
como os mais pequenos são cruéis uns com os outros, pode torná-la
motivo de troça e riso dos demais.
Também o adulto pode ser induzido em erro, atribuindo o gaguejar a uma lição
mal estudada e, nesse sentido, ralhando ou mesmo castigando a criança.
Duplamente embaraçada – pelos colegas, que riem, e pelo professor, que
castiga – aumenta a insegurança da criança e então gagueja porque tem
medo de gaguejar. A prazo está comprometido o processo de aprendizagem,
abrindo caminho ao insucesso escolar, tal como comprometida está a sua
auto-estima.
Na escola, esta criança tenderá a isolar-se. O mesmo acontecerá se a
gaguez persistir na idade adulta, com eventuais prejuízos a nível dos
relacionamentos sociais e profissionais.
A gaguez – quer na criança, quer no adulto – anda associada a situações
de pressão social, a acontecimentos geradores de stress e ansiedade. Como
falar em público. Quando uma criança brinca sozinha com os seus bonecos
ou o seu animal de estimação, o mais provável é não gaguejar. Se
cantar num coro, também não: as palavras saem-lhe fluentes, como a
qualquer outro. Porque nenhuma das duas situações exige propriamente
comunicação; têm um destinatário, mas não implicam diálogo.
A verdade é que sem constrangimento as perturbações diminuem ou mesmo
desaparecem. Além de que, sobretudo quando adultos, os gagos encontram
formas de tornear as chamadas palavras problemáticas. Pode começar por
evitar pronunciá-las, mas também pode alterar a velocidade da fala. A prática
de determinados exercícios respiratórios, para relaxar, também ajuda.
E, naturalmente, é possível recorrer a terapias específicas, orientadas
por profissionais. O acompanhamento psicológico pode também ser necessário,
de modo a identificar eventuais perturbações emocionais que estejam
associadas à gaguez.
O que é importante é identificar esta perturbação da fala o mais cedo
possível, de modo a afectar ao mínimo o bem-estar do indivíduo. Porque
o que está em causa é, acima de tudo, a auto-estima da criança ou do
adulto.
Gaguez é...
- repetir monossílabos para dizer uma única palavra
- repetir ou prolongar sons ou sílabas
- fragmentar as palavras, fazendo pausas dentro de uma só palavra
- substituir palavras para evitar pronunciar as que são problemáticas
- falar com excesso de tensão física
Uma curiosidade
A História é fértil em exemplos de homens famosos e...gagos. Demóstenes,
o grande orador ateniense, é um deles. Para corrigir a sua gaguez,
declamava longas tiradas com a boca cheia de pedrinhas e discursava diante
das ondas do mar para se habituar ao barulho das multidões.
Fonte: www.farmaciasaude.com
Homens seriam mais predispostos à
gagueira
Pesquisadores são unânimes em reconhecer
que há mais homens gagos do que mulheres. Essa predisposição para o
sexo masculino, no entanto, não tem explicação científica. A fonoaudióloga
Ana Maria Martinez, por exemplo, acredita que o desenvolvimento da
linguagem seja melhor nas meninas, pois elas começam a falar mais cedo.
As mulheres, de acordo com ela, teriam as funções cerebrais mais bem
distribuídas. Na opinião da pesquisadora francesa Claire Dinville, o que
deve ser notada é a correlação que existe entre a gagueira e todos os
distúrbios da elaboração da linguagem (atraso da fala, dislexia,
disortografia).Uma explicação para essa predominância seria o atraso no
desenvolvimento da linguagem dos meninos. Herança Alguns pesquisadores
dizem que a gagueira é herdada. Para Ana Maria, se a criança apresentar
distúrbios da fala e tiver antecedentes da família, os pais devem
procurar ajuda de uma fonoaudióloga o quanto antes. Há pesquisas que
mostram que de 30% a 40% dos gagos vêm de famílias com outros casos. Mas
essa influência ainda não está provada devido à carência das árvores
genealógicas dos gagos. Na visão de diversos autores sobre gagueira, o
percentual de canhotos entre os gagos é muito mais elevado do que nos
outros transtornos da fala. Alguns defendem que os canhotos só gaguejam
quando contrariados.
Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 23 de
setembro de 2001, Caderno Cotidiano, pág7.
Enviado por Edna.
Estudo liga apnéia do sono à gagueira
e dificuldades na fala
WASHINGTON (Reuters) - A gagueira e uma
forma grave de ronco conhecida como apnéia podem estar ligadas e ambas as
condições podem ser causadas por um dano cerebral sofrido no início da
vida, disseram pesquisadores norte-americanos.
Uma equipe da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriu que
cerca de 40 por cento dos pacientes com apnéia estudados também eram
gagos quando crianças.
A apnéia é uma forma grave do ronco, durante a qual a respiração do
paciente pára várias vezes enquanto ele dorme. O problema está ligado a
uma alta incidência de morte cardíaca.
"Por décadas achamos que a apnéia acontecia em razão de um
estreitamento das vias aéreas causado por amígdalas dilatadas, uma mandíbula
pequena e excesso de gordura na garganta", disse o médico Ronald
Harper, professor de neurobiologia.
"Nossas descobertas mostram, entretanto, que pacientes com apnéia
também sofrem conexões desordenadas nas regiões cerebrais controladoras
dos músculos das vias aéreas. Isso pode levar à síndrome",
acrescentou o chefe do estudo.
Harper e seu grupo relataram ao American Journal of Respiratory and
Critical Care Medicine que usaram a técnica da ressonância magnética
para comparar os cérebros de 21 homens com apnéia e outros 21 sem o
problema.
Os exames revelaram uma perda dramática de matéria cinzenta-- células
cerebrais-- nos homens com apnéia. As áreas do cérebro mais atingidas
eram as envolvidas no processo da fala, do movimento e da emoção.
A quantidade de dano cerebral estava correlacionada diretamente à
gravidade da apnéia. Essas áreas do cérebro nos homens saudáveis eram
entre 2 e 18 por cento maiores do que os pacientes da apnéia."Acreditamos
que um dano precoce ao centro da fala do cérebro leva a problemas nos músculos
que controlam o sistema respiratório e isso, em parte, causa a apnéia",
afirmou o médico Paul Macey, um dos pesquisadores.
"Como os pacientes da apnéia tiveram problemas na fala durante a infância
e o centro da fala do cérebro deles passou por uma perda significante da
massa cinzenta, esse dano cerebral provavelmente se originou no início da
vida."
Os pesquisadores apontaram que 38 por cento dos pacientes com apnéia
relataram ter um histórico de gagueira ou problemas na fala comparado a
apenas 7 por cento da população geral.
"Defeitos no falar podem servir como uma boa pista no diagnóstico
para determinar e tratar a apnéia", disse Macey. "No futuro, os
médicos poderão monitorar determinadas áreas cerebrais e examinar as
crianças para problemas na fala e no movimento que predizem um risco
maior de apnéia."
Yahoo! Notícias.
Telejornalismo
em close
Paulo José Cunha.
Alguma vez na vida você se lembra de ter visto um gago dando entrevista
pra televisão? É... um gago mesmo, legítimo, de nascença. Não vale
gago de programa de humor nem de pegadinha. Estou falando de entrevista no
duro, pra valer, um gago botando a cara em telejornal de rede. Lembrou-se?
Eu também não me lembrava. Até a semana passada quando, no principal
telejornal da TV Cultura, assisti, entre curioso, divertido e muito, mas
muito contente, a fala de um gago no meio de uma matéria, misturada entre
outras de não-gagos. A fala foi editada sem qualquer objetivo de
brincadeira ou chacota, sem explicação ou desculpa, sem justificação
pelo fato de estar-se ouvindo um gago e sem que o assunto da matéria
tivesse coisa alguma a ver com gagueira ou outros problemas de fala.
Apenas mais uma "sonora" numa matéria qualquer. Sonora curta,
boa, igual a dezenas que a gente vê e escuta todo dia nas várias
emissoras de tevê. Só que o cara era gago. Como podia ser negro. Ou
japonês. Ou petista. Onde é que nós estamos, gente? Pelo amor da santa,
que vergonha! Um gago dando entrevista... Em que manual eles aprenderam
que se podia fazer isso? Onde é que nós vamos parar desse jeito? Nesse
ritmo, a qualquer hora vamos terminar vendo um... fanho no Jornal
Nacional! Agora falando sério: já não é sem tempo. A verdade é que,
segundo as estatísticas, com base nos parâmetros nacionais para a
caracterização deles, pelo menos 10 por cento de nossa população é
formada pelos portadores de algum tipo de deficiência (física ou
mental). Isto corresponde a 16 milhões de cidadãos. Gente a dar com pau.
Pois toda essa formidável massa de brasileiros, por imposição não
fixada em regra escrita mas aceita sem contestação e caninamente
cumprida nas redações, praticamente não freqüenta a televisão. Nem lá
dentro como repórter ou apresentador, nem cá fora, como entrevistado. Não
é de bom tom editar uma sonora de portador de deficiência, a menos que a
matéria se refira à deficiência em causa ou o entrevistado seja pessoa
famosa. Se possível, a edição procura disfarçar a deficiência, como
se fez durante anos com as falas do deputado Inocêncio Oliveira, até que
ele tivesse a gagueira amenizada. Os editores fogem soltando vade retros
pra todo lado quando algum repórter desavisado ousa trazer a entrevista
de um portador de deficiência. Surdos, ainda vá lá, porque só precisa
da voz, se ela for, digamos, normal. E os mudos? Ah, de jeito nenhum,
mesmo que o entrevistado domine a linguagem dos sinais. Não seria de bom
tom. Até há bem pouco tempo o preconceito alcançava os homossexuais.
Era raro ouvir algum deles sendo entrevistado. Praticava-se (pratica-se
ainda, mas em escala menor) uma censura disfarçada. Tal como se faz com
negro em novela, que na maioria das vezes só aparece enxugando pratos.
Pouca gente percebeu, talvez tenha sido mesmo um simples acaso, mas a
falinha do gago na TV Cultura quebra um tabu de mais de 50 anos. Além de
sinalizar uma possibilidade promissora: a de que essa fantástica massa de
brasileiros possa exercer mais esse direito, o de poder emitir opinião e
ter presença assegurada no mais abrangente veículo de comunicação da
atualidade. Ao mesmo tempo, o gago da Cultura nos permite sonhar com uma
sociedade do futuro onde possamos assistir à participação mais do que
justa de portadores de deficiência como apresentadores e repórteres em número
correspondente ao percentual de sua incidência na população. Parece
sonho. E é. Portanto, o melhor é esquecer o que acabou de ser escrito.
Coisa mais boba, né? Imagina: cegos, surdos, mudos, fanhos e demais
portadores de deficiência física ou mental, todos na televisão, e o
pior: dentro das nossas casas! Não ia dar certo. Até porque, como se
sabe, democracia é um troço relativo. Quem disse que vale pra todo
mundo? Essa gentinha não conhece mesmo o seu lugar. E é preciso tomar
cuidado porque se der o pé vão logo querer a mão.
Enviado
por Tião. |